O sonho da Rafaela Cavalcanti de fazer um procedimento estético acabou se transformando em pesadelo. A rinomodelação feita por um profissional que não é médico, durante um curso ministrado por um dentista em julho de 2019, deu errado e ela teve necrose em 60% no nariz. De lá pra cá, ela já passou por quatro operações reconstrutivas. Desde então Rafaela está afastada do trabalho, tem dificuldades para respirar e passou a tomar antidepressivos. “Me pergunto, não vou mentir, inúmeras vezes como não fui logo ao hospital. Mas era uma área que eu não dominava, a pessoa me dizia que estava ok, que era o tempo da medicação, que era uma intercorrência, mas que estava tudo dentro da normalidade e eu confiei. Aí a pessoa só tentou a reversão quatro dias depois e aí a pele já tinha morrido”, relata.

Segundo o levantamento jurídico da Sociedade Brasileira de Dermatologia, 1.086 representações de procedimentos estéticos não autorizados foram encaminhadas ao Ministério Público de 2017 a 2021. Só em 2021 foram 41 denúncias recebidas. Em manifesto em conjunto com a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial e com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a entidade defende que a “Lei do Ato Médico” precisa ser respeitada, pois limita os campos de atuação que são exclusivos dos profissionais da medicina.

O coordenador do Departamento de Doenças Infecciosas da Sociedade de Dermatologia, Egon Daxbacher afirma que outras categorias profissionais da área da saúde não possuem preparo para ações invasivas, como procedimentos estéticos e aplicações. “A lei serve para isso, a lei ela serve para dar embasamento legal. E o que os conselhos de outras profissões tem emitido são resoluções, não são leis. Porque a lei não mudou, ela continua resultando quem são as profissionais que fazem determinados atos. Quando esses conselhos emitem essas resoluções, eles permitem que seus profissionais façam certas coisas mais avançadas que sequer estão na formação deles”, disse.

Egon alerta que são cada vez mais comuns os casos em que cirurgias plásticas são oferecidas sem necessidade. “‘Ah, você tem um sinal aqui, vamos queimar?’ Pode ser um melanoma, que é um câncer agressivo, e você morre. Você deveria ter operado e ele queimou, não era um sinal. Então a estética em diversos momentos ela se confunde com doença, porque parte do princípio que para você fazer estética você tem que conhecer doença, você tem que conhecer o que é uma pele normal, o que é uma pele doente para depois passar a tratar de beleza”, pontua. O especialista lembra que qualquer procedimento cirúrgico precisa ser realizado em ambiente hospitalar, onde há infraestrutura adequada em caso de emergências.

*Com informações da repórter Caterina Achutti

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