Cerca de seis meses após a vacinação da enfermeira Mônica Calazans, primeira vacinada contra a Covid-19 no Brasil, o tema da imunização continua sendo motivo de muitos debates, análises e preocupações entre autoridades saúde e representantes políticos. De um lado, entidades defendem a rápida imunização das grávidas, sindicatos cobram a proteção dos professores para a volta às aulas presenciais e lideranças defendem a priorização de trabalhadores, como os garis, que organizaram uma paralisação na última semana em defesa da vacina. No geral, o imunizante é aguardado por grande parte da população, com 91% dos brasileiros afirmando que anseiam pela aplicação. Agora, além de esperada, a vacinação se tornou objeto de disputa entre os Estados, que começaram uma verdadeira corrida da vacina. A competição incluiu sucessivas antecipações de calendários e até provocações nas redes sociais. “Aí, @eduardopaes [Eduardo Paes]! Se @jdoriajr [João Doria] é pai da vacina, e você diz que adotou o imunizante, é bom alertar que ela fez amizade forte com o guri do RS! A gente segue na frente nas duas doses e, do jeito que vai, a gauchada estará imunizada para a semana Farroupilha, em 20 de setembro!“, escreveu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, no Twitter. “Boa, tchê! Bora vacinar todos”, respondeu João Doria

Batizada como “rinha da vacina“, a disputa vem movimentando as redes sociais nas últimas semanas. Além das mensagens e declarações de parte dos governadores, os internautas também começaram chamar outros representantes políticos para a competição, com o objetivo de instigar a “briga saudável” e a adoção de medidas para antecipar a vacinação contra a Covid-19. “Helder Barbalho, eu não deixava! Eu falava que até agosto toda população paraense vai estar vacinada”, escreveu um internauta no Twitter, chamando o governador do Pará para a disputa com outros Estados. “Carlos Moisés, vai deixar assim? Se eu fosse tu, diminuiria o prazo também”, disse uma seguidora catarinense, chamando o político de Santa Catarina para a rinha. Mas, de fato, quem está à frente na competição? Como mostramos anteriormente, o ranking da imunização contra a Covid-19 no início da ano era ocupado pelo Amazonas, Roraima, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e São Paulo, que lideravam respectivamente as primeiras cinco posições entre os locais com maior porcentagem de vacinados. Agora, cinco meses depois, o cenário é diferente e ainda mais disputado. Considerando dados divulgados até a quinta-feira, 17, sobre a aplicação da primeira e da segunda doses das vacinas, o Rio Grande do Sul lidera a corrida da imunização, com 14,45% de vacinados, seguido do Mato Grosso do Sul, São Paulo, Amazonas e Minas Gerais. Confira abaixo os índices dos primeiros cinco Estados:

Ranking corrida vacina

O resultado acima mostra que, embora muitos governadores estejam anunciando com entusiasmo o adiantamento da vacinação, promovendo eventos, sorteio de prêmios e cutucando colegas de outros Estados, dados das secretarias de Saúde apontam que, na prática, a disputa por “quem vacina mais” está sendo protagonizada por outros locais. O Maranhão, por exemplo, que recebeu doses extras de vacinas por causa da identificação da variante indiana do coronavírus, anunciou a imunização de adultos a partir dos 24 anos em duas cidades — um recorde e um avanço frente a outros Estados, que seguem com a vacinação na faixa dos 50 anos. No entanto, em números absolutos, o Estado ocupa a 24ª colocação no ranking das unidades federativas que mais imunizaram com as duas doses. Entre os atrasados na corrida das vacinas estão: Mato Grosso (8,53%), Maranhão (8,05%), Roraima (7,99%), Acre (7,31%) e Amapá (7,24%).

Calendários

No geral, a maioria dos Estados projetam que a primeira dose das vacinas contra a Covid-19 atinjam todos os adultos com mais de 18 anos em meados de outubro. No entanto, alguns governadores apostam em uma antecipação mais agressiva, com meta de imunização para agosto. Veja abaixo alguns Estados que já anunciaram a previsão para encerrar a aplicação da primeira dose em adultos com mais de 18 anos:

  • Agosto: Ceará
  • Setembro: Maranhão, Pará, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Sergipe e São Paulo
  • Outubro: Alagoas, Espírito Santo, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro e Santa Catarina

Outros governos, como de Ibaneis Rocha, no Distrito Federal, preferem não apresentar cronograma de vacinação de longo prazo. A justificativa é que o avanço da campanha depende da entrega dos imunizantes pelo Ministério da Saúde e, por isso, é melhor “não criar expectativa que possa não se concretizar”, informou a Secretaria de Saúde do DF à Jovem Pan. Da mesma forma, a Secretaria de Saúde da Bahia afirmou que “não é adequado fazer previsões com base em entregas realizadas a conta-gotas por parte do governo federal”. Enquanto isso, no Estado de Roraima a projeção de vacinação cabe às prefeituras, “que executam a campanha de vacinação, fazem a busca ativa da população e têm a responsabilidade de alimentar o banco de dados do Ministério da Saúde”, pontuou, em nota, o governo estadual. “Ao governo de Roraima cabe o recebimento das doses, o devido armazenamento e a distribuição de forma segura e ágil aos municípios, o que tem ocorrido semanalmente”, completou.

Enquanto isso, municípios como o Rio de Janeiro entram na “rinha da vacina”. O prefeito da cidade, Eduardo Paes, anunciou na sexta-feira, 18, a antecipação do calendário de vacinação, projetando que todos os cariocas com mais de 18 anos serão imunizados até 31 de agosto, acirrando a competição e as provocações (bem humoradas) com os Estados. “Passamos o @jdoriajr [João Doria]! Falei para não me desafiar! Bora vacinar! Todos cariocas acima de 18 anos vacinados com a primeira dose até 31 de agosto. E adolescentes de 12 a 17 vacinados em setembro! Ninguém segura os cariocas!”, escreveu no Twitter. Ao todo, a capital fluminense já imunizou 50,5% da população com mais de 18 anos com a primeira dose dos imunizantes.

O que dizem os especialistas?

Embora a “rinha da vacina” esteja movimentando as redes sociais e a ideia de antecipação dos cronogramas de vacinação seja positiva, especialistas de saúde alertam para preocupações acerca do tema. O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações Renato Kfouri ressalta preocupação para as sucessivas mudanças no calendário entre os Estados e destaca a necessidade de entender qual a cobertura vacinal atingida por cada região. Ou seja, qual o percentual de idosos vacinados, de grávidas, de pessoas com comorbidades e de cada faixa etária. “Em geral, quem está vacinando mais está vacinando pior, não é um bom indicador. Se você chama todo mundo com mais de 60 anos para vacinar e aparece metade, sobrou um monte de vacinas e vou começar a chamar de 50 anos, de 40 anos. Pode ser um mal indicador, nem sempre se reflete que a coisa andou bem”, afirma, pontuando que outras variáveis podem contribuir para que determinados Estados consigam avançar mais do que outros, como o intervalo dos imunizantes para aplicação, a população estimada e a questão logística. “Em Estados pequenos, vocês consegue distribuir essas vacinas muito melhor do que no Amazonas, onde vai ter mais dificuldade de vacinar a sua população em menos tempo. Então, vai atrasar mais no Amazonas do que no Rio de Janeiro. É natural.”

Da mesma forma, o diretor da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI) Evaldo Stanislau pontua que, embora inicialmente a “corrida da vacina” seja bem vista, os diferentes momentos da imunização nos Estados representam a falta de planejamento. “Faltou coordenação, faltou planejar estoque, faltou planejar entrega. A gente não precisaria ter esse momento agora se a gente tivesse, lá atrás, o mínimo de interesse por vacinação e planejamento”, afirma, citando que as antecipações nos calendários para o fim da primeira dose nos Estados não podem colocar em risco a disponibilidade dos estoques para a segunda. “A gente tem que ter a certeza que essa corrida pela vacina não é uma corrida inconsequente. Que a gente tenha a garantia que as pessoas vão tomar o esquema vacinal completo, primeira e segunda dose. Que essa corrida não seja feita às custas de um estoque de vacina que não garanta a segunda dose”, explica, ressaltando ainda que as descobertas de novas cepas do coronavírus mostraram a necessidade de que o esquema vacinal seja respeitado. “A recomendação que a gente faz, por conta dessas variantes, é ter muita atenção para as duas doses da vacina. Não dá para a gente negligenciar e tem muita gente no Brasil que tomou só uma dose e achou que está protegida. Isso não é verdade, sobretudo em relação às variantes do vírus.”

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